Quem foi Fiódor Dostoiévski?

 

Fiódor Dostoiévski foi um dos grandes precursores da mais moderna forma de romance — a par de Emily Brontë, por exemplo —, uma forma depois representada por nomes como Proust, Virginia Woolf e James Joyce. Além disso, foi um dos maiores escritores da literatura russa e mundial. É muito conhecido pelos romances profundos que analisam e exploram a mente humana, a moralidade, o cristianismo e as crises existenciais.

 

  • Filiação 

Nasceu em Moscovo, em 1821, no dia 11 de novembro, no seio de uma família modesta. Era filho de Mikhail Dostoiévski, um médico militar, conhecido por ser severo e até abusivo com os filhos e, de acordo com relatos, bastante controlador, e de Maria Dostoiévskaia, uma mulher bastante religiosa e gentil, que teve grande influência no caráter de Dostoiévski.

 

  • Educação e Formação ao Longo da Vida

Dostoiévski teve uma vida pessoal tumultuada. Com apenas 15 anos, após a morte da sua mãe, em 1837, foi enviado para a Escola Militar de Engenharia em São Petersburgo. É nesses anos que a sua vocação literária despertou, ao entrar em contacto com grandes escritores russos e com a obra de Byron, Victor Hugo e Shakespeare.

Poucos anos depois, em 1839, o pai morreu sob circunstâncias misteriosas. Esse evento influenciou profundamente a visão que Dostoiévski tinha sobre o sofrimento, a violência e o destino, temas que abordaria nos seus romances.

Tinha sete irmãos, sendo o mais próximo dele Mikhail, o irmão mais velho. Os dois partilhavam o amor pela literatura e fundaram uma revista literária juntos, chamada Vremya (“Tempo”), onde Fiódor publicava as suas histórias e artigos. A morte de Mikhail, em 1864, foi um golpe duro para Dostoiévski, tanto emocionalmente como financeiramente, pois dependiam um do outro em vários aspetos.

 

  • Casamento: 

Casou-se duas vezes, a primeira com Maria Isaeva, em 1857, casamento marcado por dificuldades financeiras, devido ao seu próprio vício em jogos de roleta, o que o colocou em dificuldades financeiras por muito tempo, desentendimentos e casos extraconjugais. Maria faleceu em 1864, deixando-o devastado. Dois anos depois, em 1867, com 45 anos, casa-se novamente com Anna Snitkina , uma jovem de 20 anos, inteligente e compreensiva, que o ajudou a superar as suas dívidas. Desta vez, o casamento foi mais feliz e estável. Tiveram quatro filhos, dos quais apenas dois sobreviveram: Liubov e Fiódora. Anna desempenhou um papel crucial na sua vida, oferecendo-lhe apoio emocional e cuidando das suas finanças.

    • Carreira Profissional e Trabalhos forçados

    A sua estreia na literatura aconteceu em 1846 com Gente Pobre, obra que recebeu elogios pelo seu olhar realista sobre as dificuldades das classes menos favorecidas. Três anos depois, em 1849, foi condenado à morte por envolvimento numa suspeita conspiração revolucionária. A pena foi comutada para trabalhos forçados na Sibéria durante quatro anos, seguidos de cinco anos de exílio. Dostoiévski foi amnistiado em 1855. Esse período acabou por defini-lo como escritor e, após isso, tornou-se um fervoroso defensor da ortodoxia russa e de ideias conservadoras. Essa mudança influenciou os seus escritos posteriores, onde explora questões de fé e moralidade. Em Os Irmãos Karamazov, examina a questão da existência de Deus e os dilemas morais da humanidade.

    A partir desta data, inicia-se um período de atividade literária intensa, com a publicação de algumas das suas obras mais importantes, entre elas:

     

    • Gente Pobre, 1846
    • Crime e Castigo", 1866
    • O Jogador, 1866
    • O Idiota, 1869
    • Os Demónios, 1872
    • Os Irmãos Karamazov,1879-80

     

     

    • Últimos momentos

    Dostoiévski sofria de epilepsia, condição que o acompanhou por toda a vida e que ele também retrata em algumas das suas obras, como O Idiota. Ele tinha crises epilépticas frequentes e severas, que afetavam tanto a sua saúde física como a mental. Além disso, sofreu de depressão e ansiedade, que eram exacerbadas pelos problemas financeiros e pelo vício em jogos de azar. Durante os trabalhos forçados na Sibéria, sofreu condições extremas e privações. Essa experiência deixou marcas indeléveis na sua visão do mundo e moldou muitas das suas reflexões sobre o sofrimento e a redenção, descritas na obra "Recordação da Casa dos Mortos".

    No dia 28 de janeiro de 1881, Dostoiévski faleceu em São Petersburgo, de uma hemorragia pulmonar causada por um enfisema. A sua morte foi muito sentida na Rússia, e o seu funeral atraiu uma enorme multidão, demonstrando o impacto que já exercia na cultura russa.

     

     

     

    Para terminar, sendo Dostoiévski um dos escritores favoritos da autora do blogue, não tenho muito mais a dizer além de que deixou um legado que influenciou inúmeros filósofos e escritores, como Nietzsche, Sartre e Albert Camus. Atrevo-me a dizer que foi um dos poucos que explorou a complexidade da condição humana através de um monólogo interior nas suas personagens e que, de uma opinião solene, as suas histórias, sejam elas curtas ou extensas, oferecem uma visão profunda sobre o lado mais sombrio e mais iluminado da alma humana.

     

     

    Deixo-vos aqui abaixo algumas citações breves para reflexão: 

     

    “ Deus não consiste na força, mas na verdade" ( Os Irmão Karamazov, 1880)

    "O segredo da existência humana reside não apenas em ficar vivo, mas em encontrar algo pelo qual viver. ( Os Irmão Karamazov, 1880)

    "Ama os animais, ama as plantas, ama tudo. Se amas tudo, perceberás o mistério divino nas coisas. Depois de o perceber, começarás a compreendê-lo melhor a cada dia. E, por fim, amarás o mundo inteiro com um amor sem limites." (Os Irmãos Karamazov, 1880)

    "O amor é mestre, mas é preciso saber adquiri-lo, pois adquire-se dificilmente, ao preço de um esforço prolongado; é preciso amar, de facto, não por um instante, mas até ao fim." (Os Irmãos Karamazov, 1880)

    "Não, a vida não me foi dada senão uma vez, e não quero esperar esta felicidade universal. Antes de tudo eu quero viver; caso contrário, seria melhor não existir". (Crime e Castigo, 1866)

    "O homem está sempre pronto para distorcer aquilo que dizem os seus sentidos, simplesmente para justificar a sua lógica.

    ( Mémorias do subsolo,1864)

    "O homem é infeliz porque não sabe que é feliz, só por isso". (Os possesos, 1872)