A sonata de Kreutzer- Toilstói

Published on 11 July 2026 at 18:05

"A música trasnfere-me de imediato para o estado de espírito do músico quando a compôs. Fundo-me na alma dele e, juntamente com ele, transporto-me de um estado para o outro, mas não sei porque o faço. "

Sonata de Kreutzer é uma das obras mais polémicas de Lev Tolstói e uma das mais profundas sobre o amor, o casamento e a natureza humana. Apesar de ser uma novela relativamente curta, a sua riqueza psicológica e filosófica faz com que cada capítulo esteja carregado de simbolismo e crítica social.

 

RESUMO DA OBRA: 

A Sonata de Kreutzer, publicada em 1889,  é um romance psicológico- criminal narrada na primeira pessoa e apresentada sob a forma de um relato confissão. Tolstói afasta-se da narrativa tradicional e constrói um romance quase inteiramente baseado num diálogo entre desconhecidos dentro de um comboio.

O protagonista, Pozdnyshev, revela aos restantes passageiros que assassinou a própria mulher por ciúme. A partir desse momento, o romance deixa de ser apenas a história de um homicídio e se transforma numa profunda reflexão sobre o casamento, a sexualidade, o desejo, a fidelidade e as normas sociais do século XIX.

A obra foi extremamente controversa na época, chegando a ser censurada em vários países, porque questionava frontalmente o casamento, criticava a moral burguesa e defendia ideias radicais sobre o desejo sexual.

  • No comboio: O ínicio da Viagem

A história inicia-se num comboio, onde vários passageiros discutem temas como o amor, o casamento e o divórcio. A conversa torna-se cada vez mais acesa quando alguns defendem que um casamento feliz só é possível através do amor verdadeiro, enquanto outros consideram que o casamento deve assentar sobretudo no dever e na estabilidade. Durante grande parte da discussão, um homem, sentado num canto permanece em silêncio, ouvindo atentamente toda a conversa. Esse homem é Pozdnyshev que, acaba por intervir de forma intensa e surpreendente, afirmando que o amor romântico é uma ilusão e que a maioria dos casamentos está condenada ao fracasso. A sua visão choca os restantes passageiros, mas o verdadeiro espanto surge quando revela que matou a própria mulher por ciúme e que, apesar disso, foi absolvido pelo tribunal. Quando os outros passageiros abandonam o comboio, Pozdnyshev fica sozinho com o narrador e decide contar-lhe toda a sua história. A partir desse momento, toda a narrativa assume a forma da sua confissão.

  • Recordações da juventude de Pozdnyshev 

Pozdnyshev começa por recordar a sua juventude e faz uma crítica severa à educação recebida pelos homens da sua classe social. Explica que, desde muito novo, foi incentivado a encarar a sexualidade como uma necessidade natural e a procurar relações antes do casamento. A sociedade aceitava naturalmente a prostituição masculina, considerando-a até necessária. Segundo Pozdnyshev, esta educação destruiu completamente a sua capacidade de amar. 

Segundo ele, a sociedade aceitava esta conduta masculina, enquanto exigia das mulheres pureza e virtude. Esta desigualdade leva-o a concluir que os homens aprendem a ver as mulheres como objectos de desejo muito antes de aprenderem a respeitá-las como pessoas. Para Pozdnyshev, esta forma de educação destrói qualquer possibilidade de construir um amor verdadeiro, pois transforma as relações humanas numa procura egoísta de prazer e satisfação pessoal.

  • A visão do Casamento: 

Mais tarde, conhece aquela que viria a ser a sua esposa, pertencente ao mesmo meio social. Inicialmente acredita estar profundamente apaixonado e convence-se de que encontrou a felicidade. O casamento realiza-se num ambiente de entusiasmo e esperança, mas, pouco tempo depois, começam a surgir os primeiros conflitos. Pequenas discussões sobre dinheiro, a gestão da casa, a educação dos filhos e as responsabilidades familiares tornam-se cada vez mais frequentes. Aos poucos, o casal entra numa dinâmica de constantes desentendimentos, marcada por ressentimentos, silêncios e disputas de poder. A paixão inicial desaparece e é substituída por uma convivência difícil, onde ambos parecem incapazes de compreender verdadeiramente o outro.

Cada discussão torna-se uma luta pelo poder. O silêncio torna-se uma forma de punição. A intimidade física, que inicialmente unia o casal, passa a aumentar a distância entre ambos. Para Pozdnyshev, o desejo sexual deixa de ser um acto de amor e torna-se um mecanismo de dominaçãoe, é precisamente aqui que Tolstói apresenta uma das suas ideias mais polémicas: O casamento baseado apenas na atracção física está condenado ao fracasso.

Com o nascimento dos filhos, a relação deteriora-se ainda mais. A esposa dedica grande parte do seu tempo à maternidade, enquanto Pozdnyshev se sente cada vez mais distante e insatisfeito. Mais tarde, quando deixa de amamentar e recupera parte da sua autonomia, volta a dedicar-se à música, uma paixão antiga que lhe devolve entusiasmo e alegria. É precisamente através da música que conhece Trukhachevsky, um talentoso violinista com quem começa a ensaiar regularmente. Os dois partilham o gosto pela arte e passam várias horas juntos a preparar concertos e interpretações musicais.

Pozdnyshev interpreta estas mudanças como sinais de infidelidade. Na realidade, o leitor nunca encontra provas objectivas de qualquer traição. O ciúme nasce sobretudo da imaginação do protagonista. A cumplicidade artística entre ambos desperta nele um ciúme obsessivo. Cada conversa, cada olhar e cada ensaio alimentam a sua imaginação, levando-o a acreditar que está a ser enganado. Tolstói descreve com grande profundidade a forma como o ciúme altera a percepção da realidade, mostrando que Pozdnyshev deixa progressivamente de distinguir os factos das suas próprias suspeitas.

O ponto decisivo da narrativa ocorre quando a esposa e Trukhachevsky interpretam juntos a Sonata para Violino n.º 9, de Beethoven, conhecida como Sonata de Kreutzer. A intensidade emocional da música impressiona profundamente Pozdnyshev. Para ele, aquela obra desperta sentimentos demasiado fortes e cria uma ligação íntima entre os músicos, capaz de ultrapassar qualquer barreira moral. Convencido de que a música favorece o nascimento de uma paixão entre ambos, passa a ver cada encontro como uma confirmação da infidelidade da mulher. Tolstói utiliza este episódio para reflectir sobre o poder da arte, mostrando como a música pode despertar emoções profundas e incontroláveis, mas deixando ao leitor a dúvida sobre se a traição existiu realmente ou se foi apenas uma construção da mente perturbada e paranóica do protagonista.

Dominado pela obsessão, Pozdnyshev decide regressar inesperadamente a casa depois de uma viagem. Ao chegar, encontra Trukhachevsky com a sua esposa. Apesar de não testemunhar qualquer acto de infidelidade, a simples presença do violinista basta para desencadear um acesso de fúria. Incapaz de controlar o ciúme, pega numa adaga e ataca violentamente a mulher, ferindo-a mortalmente. Só depois do crime, ao vê-la agonizar, toma verdadeira consciência da gravidade do que fez. É nesse momento que compreende que destruiu não apenas a vida da esposa, mas também a sua própria.

Após o homicídio, Pozdnyshev é preso e levado a julgamento. No entanto, acaba por ser absolvido, uma vez que a sociedade da época considera o ciúme uma circunstância atenuante. Tolstói utiliza este episódio para criticar duramente uma justiça dominada por valores patriarcais, onde a honra masculina é frequentemente colocada acima da vida das mulheres. A absolvição de Pozdnyshev revela uma sociedade que compreende e, em certa medida, legitima a violência exercida pelos homens quando sentem que a sua autoridade ou o seu orgulho foram postos em causa.

Depois de todos estes acontecimentos, Pozdnyshev dedica-se a reflectir sobre a sua vida e chega à conclusão de que o verdadeiro problema não foi apenas o seu ciúme, mas toda a forma como a sociedade entende o amor, o casamento e a sexualidade. Defende que aquilo a que normalmente se chama amor é, muitas vezes, apenas desejo físico disfarçado de sentimento. Na sua perspectiva, o casamento construído sobre a atracção sexual está inevitavelmente condenado ao sofrimento, porque transforma os cônjuges em rivais e leva cada um a tentar possuir o outro. Para ele, homens e mulheres são educados segundo papéis artificiais que impedem o desenvolvimento de relações baseadas no respeito, na igualdade e na verdadeira compreensão mútua.

  • Reflexão final:

Ao terminar a sua confissão, Pozdnyshev deixa o leitor perante uma profunda reflexão sobre a natureza humana. Tolstói não procura justificar o homicídio, mas utiliza-o como ponto de partida para analisar as consequências do desejo, da posse e da incapacidade de amar de forma livre e respeitosa sem possuir. O romance não oferece respostas simples nem apresenta heróis ou vilões absolutos. Pelo contrário, expõe as fragilidades do ser humano e questiona uma sociedade que romantiza o ciúme, normaliza relações de poder entre homens e mulheres e confunde frequentemente amor com domínio.

Desta forma, A Sonata de Kreutzer permanece uma obra muito atual. É muito mais do que a história de um homicídio conjugal. É uma análise intensa da psicologia do ciúme, da possessividade e das expectativas impostas ao casamento. Tolstói expõe as contradições de uma sociedade que idealiza o amor romântico, mas educa homens e mulheres para relações marcadas pela desigualdade, pelo poder e pela aparência.

A grande força da obra reside precisamente na sua ambiguidade: nunca sabemos com certeza se houve uma traição. O verdadeiro centro da narrativa não é descobrir se a esposa foi infiel, mas observar como a obsessão transforma a percepção da realidade. O romance obriga o leitor a confrontar questões que continuam atuais: onde termina o amor e começa a posse? Até que ponto o ciúme nasce dos actos do outro ou das inseguranças de quem ama? É essa capacidade de suscitar perguntas, mais do que oferecer respostas, que faz de A Sonata de Kreutzer uma das obras mais inquietantes e intemporais de Tolstói. Esta crítica constitui um dos pilares do romance. Tolstói sugere que a corrupção do casamento começa muito antes da cerimónia. Começa na educação.

 

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